terça-feira, 26 de maio de 2009

Aviso

Caros leitores, agradeço a todos os que acompanharam essa história até aqui e informo que, em breve, em meu novo site você terá acesso a minha obra completa. Com este blog, provei que é possível escrever um livro on-line, mas, como em toda história de fantasma, o final deve ser mantido em suspense. Ao menos, até o novo site.

Muito obrigado,

Daniel Campos

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ghost 35

Île de la Cité


São dezenove andares. Impossível pular, voar e ser alçado dali por algum helicóptero. A fumaça me consome em profundas tragadas. As batidas na porta aumentam. Nadine desaparecera nas labaredas. Angustia. Desespero. Medo. Naquele fogo todo não me domino e minha boca invoca o fantasma em uma língua que, num primeiro momento, não compreendo. Vou sendo tomado pela minha própria língua. As palavras vão me ardendo, vão me levando ao fogo e eu não sinto nada. Minha pele parece incólume àquela chama. A minha língua vai me inebriando, me envolvendo, me chamando pelo nome. Colin. Colin. Colin. Eu caminho pelo fogo ao encontro das profecias e magias daquela língua.

São dezenove andares e um fogo bravio, que me cega em brasa os olhos. Descerro os olhos e ao abri-los estou em uma pensão barata em Paris, com quadros na parede, flores de plástico e um cinzeiro de pedra, com um cigarro ainda queimando. Não me lembro de nada do que aconteceu depois de ter pronunciado aquelas palavras clamando pelo fantasma. Será que eu desmaterializei? Será que alguém me trouxe para aquele lugar? Será que nada daquele incêndio aconteceu? Mas por que alguém me levaria para uma pensão e não para a cadeia? Afinal, eu estava sendo caçado. Será que tudo não passou de um sonho? Realidade ou ficção, que dimensão é essa em que estou?

Uma espécie de amnésia ou de bloqueio emocional me impedia de desvendar o que aconteceu de fato. Eram várias hipóteses e nenhuma certeza. Em meu corpo, nenhuma ferida, nenhuma queimadura. Só um ardor. Mas talvez fosse ressaca. Procuro pelo espelho, mas não encontro em minha pele as unhas de Nadine, a guerreira celta. Será que tudo aquilo foi forjado pela minha mente? Será que na iminência de ser seguido pelo sr. Alain Bourdais resolvi me esconder em uma espelunca? Será que foi Spencer quem mudou meu caminho? Mentalizo e chamo meu tutor, mas ele não aparece, tampouco me sinaliza algo que descortinasse esse terreno movediço em que pisava.

Será que estou seguro neste quarto? E de quem é aquele cigarro? E se os policiais me esperassem na recepção? E se aquelas paredes fossem falsas a ponto do maestro me observar através delas? E se isso não fosse um quarto de pensão, mas de uma penitenciária ou de um manicômio? Seja como for, antes de obter quaisquer respostas, resolvo sair pela janela. São poucos metros. Caio em uma ruela, e corro. O dia mal amanhecido me olha com cara ruim. O único sentimento que me move é o fugir. Já estou cada dia mais parecido com meu pai. Eu já havia até matado uma pessoa. O curioso é que fui pensar nesse assunto enquanto corria. E mais curioso ainda é que eu via meu pai sorrindo de orgulho de ter um filho bandido e fugitivo igual ele. Escuto suas gargalhadas e a minha visão se turva. Não sinto mais meus pés pisando o asfalto. Sou tragado para uma outra realidade.

Sinto como se estivesse em um quadro de Monet, tudo é tão surreal. Nesse impressionismo todo, eu me impressiono. Em que Paris eu estou? Olha minha mãe escondendo o rosto com vergonha de mim. Olha minha irmã chorando diante do que eu virei. Olha meu irmão gritando comigo. O silêncio de minha mãe, o choro de minha irmã e os gritos de meu irmão se misturam aos risos do meu pai e distorcem a minha estada. E para completar os sons, as notas ensurdecedoras de Nadine. As mortes de Nadine, no Egito e na França, berrando aos meus ouvidos. Isso sem falar dos gemidos da deusa celta que pousou em minha cama durante o incêndio. Mas que incêndio, se eu estava na pensão?

De repente, uma queda quebra todos aqueles sons. Havia esbarrado em um jornaleiro e caído ao chão, sobre os jornais. Na capa, fotos do incêndio no prédio onde eu estava. A manchete era: “será o fim do ghostwriter?” Para me desculpar com o jornaleiro e matar minha sede de curiosidade, compro um daqueles jornais e sigo adiante. A matéria dizia que havia boatos de que o ghostwriter estava hospedado em um hotel no centro de Paris e que o fogo teria começado em seu apartamento devido a um ritual satânico que promovera.

Malditos!

No entanto, o jornal se pergunta quantas vidas tem um ghostwriter, já que muitos tinham dado como certa sua morte em um acidente de carro na noite anterior, no rio Sena. Foram encontradas sua máscara e capa boiando no correr das águas. No entanto, seu corpo ainda era um mistério. Houve perseguição policial, mas ninguém conseguiu capturar o fantasma. No entanto, a Interpol afirma que detetives já começaram a investigar se o ghostwriter morreu ou não no incêndio. Leio e releio aquela matéria enquanto o trem balança. Ao meu lado, um senhor de colete mostarda e uma jovem, com cachecol roxo no pescoço e uma flauta prateada na mão me entreolham. Serão policiais disfarçados? Serão amantes do mistério ou seguidores da idéia de que o ghostwriter deva morrer?

Afundo meus olhos naquele jornal e relembro que depois do espetáculo em que assisti Nadine pela primeira vez eu a segui pelas ruas de Paris. Foi nessa ocasião em que ela olhou para o horizonte e me perguntou se eu não queria morrer da cidade ilha. Eu sem saber o porquê disse que Paris nasceu de uma ilha. E por isso eu devia me sentir atraído, já que a alma de um celta, depois da morte do corpo, vai para as ilhas. Na mitologia, as ilhas estão associadas ao outro mundo, à terra da juventude eterna, à terra dos ancestrais, onde os celtas vivem ao lado de antepassados e deuses.

Mas como ela sabia que eu era um celta? O mito do ghostwriter é inglês, um britânico típico. O mundo celta, com seus sentimentos e lendas, estava mais ligado a Mark Egan.

A música acabou em aplausos. A pianista deixa o palco. Eu saio em meio a outros tantos passos e entro em um táxi. Nadine, quase duas horas depois, deixa o teatro em um carro prateado, levando apenas ela, e parte para uma Paris de cartões postais. Estaciona no Champ-de Mars e desce lentamente, com uma calma capaz de embaralhar relógios. Caminha vestida com uma roupa que esvoaça ao vento. Uma roupa longa e branca. Não sei como, mas o elevador ainda funciona. E ela vai aos céus daquela árvore de ferro. Eu, sem saber o que acontecia, vou ao seu encontro. Só que não era Mark Egan, mas Colin Collins quem subiria até lá. Visto a máscara e a capa que trazia escondido comigo e avanço por aquela torre.

Como o elevador poderia ser uma armadilha, uma espécie de gaiola, avanço pela escada. São infinitos degraus e um perfume estranho ali. Será Nadine? Será o fantasma? Será o desejo? Sem saber ao certo o que era aquele cheiro, avanço como que a caçando, como que me caçando e, sobretudo, sendo caçado. Vou percorrendo aquele ferro retorcido por metros e metros num fôlego sobre-humano. E da escuridão da ferrugem em noite, surge notas dos ventos trazendo aquele perfume. Como que enrolada em lenços brancos, em feito de teclas de piano, a pianista compõe o horizonte. De forma mágica, ela cantava para Paris dormir com sua flauta. O vento levava o som e o perfume das notas daquela mulher para as casas, inebriando vidas futuras e passadas.

Ela toca como se eu não estivesse ali. Ela me ignora e me apavora por completo. Quando termina sua música, ela respira por alguns minutos ao léu e dispara:

- Paris não é um lugar ideal para morrer?

Eu fico atônico diante do tipo de pergunta. Porém, ela insiste.

- A alma de um celta é imortal, não é?

Ela diz que os celtas, quando morrem, vão, em alma, para ilhas. E é lá que continuam uma outra vida, ao lado de deuses e antepassados. Como ela poderia saber que eu era um celta? Só quem sabia isso era Mark Egan. Diante de minhas inquietações, continuo em silêncio.

- Daqui, do alto das centenas de metros da Torre Eiffel, Paris é uma ilha. A cidade luz foi construída às margens do rio Sena, no local onde o rio se divide, formando uma pequena ilha. Île de la Cité, bonito nome, não é fantasma?

Repito baixinho em meio ao espanto:

- Île de la Cité, Île de la Cite, Île de la Cite...

- Pois bem, olha o rio sena correndo ali tão perto. É como se essa torre fosse a montanha mais alta da ilha, de onde a gente conseguisse ver além da própria morte. Eu, sem dúvida, quero morrer em Paris. Aqui é a minha ilha. E você? Prefere as ilhas irlandesas?

Mas como ela sabia que eu era irlandês? Ela sabia mais coisas de mim do que eu pudera imaginar. E tudo isso me fazia calar cada vez mais. Ela veio, como algo sobrenatural, com olhos fundos, açoitando-me. Eu fui me esquivando. Lá embaixo, a cidade iluminada. Foi quando ela se aproximou como nunca dantes e tocou uma música celta naquela flauta. Não sei como podia, mas era como se druidas e sacerdotes estivessem ali, em uma celebração.

De repente, antes que o musical chegasse ao fim, um vento forte brada pelos céus parisienses e a minha capa negra voa pelos céus com partes de seus lenços. Antes que o vento retirasse a minha máscara e ela soubesse a minha identidade, eu saio de cena. Tento o elevador, mas ele está sem energia. Vou pelos degraus eu ainda escuto aquela flauta. Chego aos pés da torre e corro pela escuridão que cobre a minha identidade. No entanto, aquela música, do alto da torre, parece me perseguir e me desvendar a cada passo. Eu me apresso e chego às margens do rio Sena, quando vejo o reflexo de Nadine passar pelo rio. Ela estava ali, com sua música. Mas como chegou antes de mim se eu ainda a deixei com flauta em punho no alto da torre e o elevador estava parado. E naquele reencontro, naquela espécie de cais, ela torna a perguntar:

- Não seria doce morrer em Paris?

O vento sopra ainda mais forte e o reflexo dela some do lago. O vento, de tão forte, parece ter me salvo, me carregado pela noite escura e levado parte dessas lembranças com ele.

O estranho é que só agora eu relembro desse acontecido. Algo de sobre-humano ocorreu naquela noite. Será que ela ia toda noite para o alto da Torre Eiffel para colocar Paris no colo, ninando-a, ou só me atraiu para lá, querendo desvendar o meu segredo? Será que ela também tinha um pacto sobrenatural ou era a isca perfeita para me desmascarar? Uma trama difícil de ser entendida. Tudo chacoalha em minha cabeça. O balanço do trem, do destino, do desconhecido. O velho ainda está ali, mas a mulher de cachecol roxo e flauta prateada havia desaparecido. O mundo ao meu redor se enredava cada vez mais nas linhas do mistério. Quando termino de engolir o café amargo do trem, vejo o meu reflexo no fundo da xícara em uma das minhas cafeterias. Estou de volta à Inglaterra. Será que essa seria a ilha ideal para eu morrer?

A história do ghostwriter começa a ficar mais perigosa a cada novo capítulo. Muitas coisas estão revirando dentro da sua cabeça, não é? Pois bem, não perca os próximos capítulos dessa história que nos leva à loucura. Até lá!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Ghost 34



O festival das luzes


A altura e a velocidade fizeram com que o carro naufragasse rapidamente vários metros. Ainda consegui abrir a porta e nadar para longe do Renault. O rio foi alvejado com tiros. Eles tinham todo o aparato terrestre e até um helicóptero, mas não pensaram em mergulhadores, barcos. Mais uma vez, os surpreendi. Consegui nadar naquele rio escuro sem ser descoberto. Deixei capa e máscara boiando na água para facilitar o nado e instalar o sentimento de dúvida sobre uma suposta morte do ghostwriter. Roubei roupas secas pelo caminho, outro carro, agora um carro norte-americano, e cheguei ao hotel de Budapeste sem levantar suspeita. O carro que fui ao encontro também era roubado. Desta forma, nunca chegariam a mim. No entanto, nunca é muito forte.

Entrei no meu quarto sem acender luz alguma. Liguei o chuveiro na temperatura máxima e tomo uma dose dupla de uísque, ainda sentado no vaso sanitário. Queria entender o que acontecia. Aquele homem não poderia ser um simples maestro. Ele tinha uma mente maquiavélica. Ele, assim como eu, não era quem dizia ser. O fato é que todo esse enredo não passava de uma grande armadilha para capturar aquele que a imprensa tinha transformado no maior procurado da última década. Quem será que estava por trás deste maldito Bourdais. Alguma empresa jornalística? O reino inglês? A Interpol? Os remanescentes do nazismo? A sociedade dos escritores? A paixão do maestro por Nadine? Será que essa paixão obsessiva que ele dizia ter pela musa o levaria a tanto? Ou... não, não poderia ser...

Nadine estava deitada em minha cama, vestida de celta. A realidade estava prestes a entrar em coma alcoólico.

Centenas de velas acesas sob vários níveis do quarto revelavam uma outra Nadine. Vestida com uma semi-nudez vistosa, de fios de cores vívidas, expunha-se às garras de uma vaidade de adereços feitos em ouro e âmbar. A penumbra criava um outro relevo pelo seu corpo, que confluía olhares para um torque. Aquele colar grosso de ouro a fazia uma típica celta. Em tons de sangue, o manto cobria uma pele que exalava um cheiro de anjo. Como nos contos, seu cabelo ganhou grandes tranças. Maquiada em cores e contornos fortes, seu rosto dizia outros traços. E ela estava ali, como a chefe de uma tribo, pronta a guerrear. De fato, toda dúvida se ela me reconheceria sem máscara acabava ali, naquele momento. Nadine sabia que eu era o ghostwriter mesmo de cara limpa. E isso era perigoso demais.

Eu me perdia em labirintos ao tentar entender a cena. A mulher que me enfeitiçou em francês, agora cantava uma língua perdida sobre a minha cama. Suas pernas se cruzavam de modo que hordas de sonhos e criaturas lendárias tornavam-se possíveis e, quiçá, palpáveis. Sem falar nada além dos versos antigos, Nadine levantou da cama e andou sobre lençóis, colocando-me sobre teu sexo. Passou o pé em meu peito, agachou e ao chegar perto da me rosto me deu um tapa. Era como se colocasse ali a violência de uma guerra. E, antes de qualquer contra-reação, calou-me em um beijo demoníaco. Subiu em meu corpo, escalando meus sentidos, tapando meus ouvidos. Sua língua falava dialetos desconhecidos sobre a minha pele, tatuada de medo e suor. Um medo quente. Um suor frio. Ela me ganha, me arranha, me morde, me sangra como se eu fosse tua fêmea.

Ela domina.

Fora a imagem física e o tom da voz não havia mais nada que aproximasse essa Nadine da outra, a que deixei no teatro de Cairo. Será que depois de morta apoderou-se de outra personalidade? Será que tudo aquilo era a incongruência do espírito? Será que o tipo de morte afastou-a da paz? Com magia e mistérios, reinava através da lua, das emoções e das intuições, calando as feras que rugiam em mim até pouco tempo. Devorando-me e me colocando em teu colo, foi semeando a incompreensão em minha alma. Era como se Deus, depois de sete dias de luz, de luz da criação, internasse-se em sua própria escuridão, preparando-se para um novo nascer, para um novo amanhecer. E Nadine fazia parte dessa luz e dessa escuridão. Na verdade, era uma espécie de eclipse. E ela ia se alinhando ao meu sexo e desalinhando o meu mundo já sem norte.

Mais do que tudo, Nadine era chama. E ardia como a vela do fantasma. O uísque não seria capaz de me levar a tal delírio. Aquilo era real. Mas aquilo não podia ser real. Talvez tudo isso fosse fruto daqueles espelhos, da confissão interior da morte da pianista. Ou... é isso. Nem me atentei. Hoje é 1 de fevereiro. O dia da festa do fogo. Para nós, celtas, o inverno ainda não foi embora, mas a vida já começa a ganhar força lá fora. E o lá fora é Nadine, a própria representação do Imbolc, que na língua dos sacerdotes significa útero. As coisas não acontecem diante de nossos olhos, mas já estão lá, latente, pulsando, esperando o momento certo para vir à tona. Nadine não acontecia conforme o cotidiano, mas estava ali o tempo todo. Isso fortalecia a teoria de que ela era um espírito, que fragmentava e desfragmentava como as notas de uma canção pelo ar.

Será que Nadine é o fantasma que concede vida ao ghostwriter. Será que Nadine é o meu fantasma? Victor Spencer nunca revelou o nome ou a forma como se apresentava o fantasma. Dizia apenas que um dia iria me surpreender ao conhecê-lo. Nadine é o meu fantasma. Por mais forte que seja essa afirmação, de certa forma, ela faz sentido. Aquela noite era o nosso parto, amanhã nos revelaríamos ao sol. Ela grita e geme em uma língua que invoca bárbaros. Os bárbaros de mim. Tudo começa a fazer sentido. A noite do fogo também é chamada de festival das luzes, por isso velas por toda casa. É a vinda do sol. É a vinda de vida nova. A França é apenas um disfarce, a pianista é celta.

São milênios de história. Uma história perdida pelo tempo. Lembro-me pequeno, em volta de uma fogueira na Irlanda. Pedidos, agradecimentos ou poesias sendo queimados na fogueira ou no caldeirão em oferenda, no fim do ritual, comandado por sacerdotes. A esperança de Deus trazer luz ao mundo. Dezenas de pessoas pedindo proteção para a família e amigos. Pessoas mentalizando Deus. Pessoas ardendo a chama da coragem dentro de si próprias. Pessoas em torno de um altar enfeitado com flores amarelas, alaranjadas ou vermelhas. E as rosas do fantasma são da cor laranja, como aquela que é devorada por Nadine. A pianista pega as flores do jarro e as mastiga, alimentando-se de outros mundos.

Todo ano eu queimo algum escrito meu. Nesse ano, tinha esquecido desse ritual. Aliás, Nadine me fez esquecer de muitas coisas. Deixar de queimar algo era um sacrilégio. A pianista joga os originais do livro que seria escrito para ela sobre a cama. O livro encomendado pelo maestro. Num gesto abrupto, as folhas são espalhadas. Ela se deita e vai imprimindo seu corpo sobre as folhas. É como se ela quisesse reescrever sua história ou se reencontrar com ela. Depois de rolar sobre a cama, sufoca-me em seu corpo. Suas pernas em minhas costelas. Sua cintura em minhas mãos. Seus lábios em meu corpo. Amamo-nos violentamente sobre os escritos. A violência foi tanta que as folhas foram tingidas com sangue. Nadine estava incontrolável, fera indomável. Parecia querer me matar naquele desespero. Estava intensa demais. As velas ardiam cada vez mais. Eu era dominado, eu era caça nos dentes da presa.

Talvez quisera se vingar da morte e, agora, matar-me-ia. E eu não conseguia correr. Embora soubesse que iria morrer, queria ficar ali, naquele desejo abrupto. Naquele momento eu não era Mark Egan, não era Colin Collins, era uma outra coisa, sem nome. Mas muito mais forte do que tudo. Era o celta que me habitava. E, pouco a pouco, fui me encorajando, me redescobrindo, me sentindo como um novo eu. E a batalha cresceu em poder. O poder da feminilidade e da virilidade num duelo sem armaduras ou elos. Corpos tombados, violentados, prostrados diante de um só desejo: amar até a morte. E a cada beijo ou gozo a morte se via mais próxima.

Os beijos se transformam em tapas e novamente em beijos e em batidas na porta. Batidas na porta? Quem será? Eu não havia pedido nada ao serviço de quarto, tampouco esperava alguém. As batidas na porta me perseguiam desde a morte de minha família e não eram vistas como um bom sinal. O que significa sorte para alguns, aqueles toques na madeira eram agouro em minha vida. Nadine não me deixa sair da cama, mas eu só aceitaria morrer por amor. A morte por outro motivo seria inaceitável. Ao menos, naquele momento. O som de helicóptero rondando o prédio. Canhões de luz e sirenes de polícia não eram a melhor trilha sonora para fazer amor. Mas Nadine parece não entender isso. Aliás, para ela tudo estava normal, como que previsto. Tento sair de seus braços, ela me bate e eu respondo com um golpe em sua nuca, deixando-a atordoada sobre a cama.

As batidas se intensificam. Gritam o meu nome. Alain Bourdais e seus gangsteres. Estavam armados. Poderiam alvejar a porta a qualquer momento. Queriam que eu me entregasse. Queriam desmascarar o ghostwriter. Nadine acorda e ateia fogo na cama. Eles começam a atirar na porta. O fogo se transforma em labaredas. A fumaça invade o quarto, os olhos, a boca. A única saída seria a janela. Mas agora eu estou no 19º andar. O milagre de sair ileso pelos ares estava além do fantasma. Tento salvar Nadine, mas ela desaparece em meio ao fogo. O fogo consome a guerreira celta. Ela morre, diante dos meus olhos, pela segunda vez. Naquele ano, no festival das luzes, o escrito a ser queimado é Nadine, uma obra para sempre inacabada. Entre labaredas e fumaça, notas celtas de um piano francês ardiam em tom de desespero.


Entre a alucinação e a realidade, Colin está cercado. Será o fim do ghostwriter? Será que o rosto do polêmico escritor fantasma será exposto em todos os jornais? E Nadine, qual o mistério que há por trás de tudo isso. Continue acompanhando essa história nos próximos capítulos.

Ghost 33

Sala de espelhos


Junto com os escândalos, crescia o valor dos textos pagos pelo ghostwriter. Algumas linhas valiam uma verdadeira fortuna. Chegava aos trinta anos com uma conta bancária de dar inveja a muitos empresários bem sucedidos. Por mais que a imprensa dissesse que esse dinheiro era ilícito e eu devesse boa parte de tudo isso em impostos, vivia em paz comigo. Colin Collins não existe e Mark Egan é proprietário de uma rede que já conta com 34 cafeterias literárias espalhadas pela Grã-Bretanha. Cumprindo o prometido, o fantasma me deu status e dinheiro. O meu nome em capas de livro era, realmente, um detalhe sem importância.

Um detalhe que incomodou muito nas primeiras obras, mas depois foi se calando, perdendo a voz, a vontade de lutar. E o sentimento de querer assinar, de não aceitar vender seu texto, de odiar o anonimato foi adormecendo dentro em mim. Vez ou outra esse desejo de assumir os filhos tenta acordar. Mas a situação o faz dormir novamente. Há meses estou livre de uma dessas crises. Não sei se esse desejo fez morrer de uma vez por todas ou se foi sufocado pelo arroubo Nadine. Tudo o que vivo e o que sou se refere à pianista. Aliás, eu me transformei em uma de suas canções. Uma canção, por enquanto, sem final, ao menos, feliz.

Por falar em final, o sr. Alain Bourdais quer um novo encontro presencial para tratar da parte final do livro. Como agravante, quer escolher o local do encontro. Segundo ele, para ser democrático, eu escolho dia e horário e ele o local. Não costumo ceder a esse tipo de exigência, no entanto, este caso era especial. Diante das cartas que me foram distribuídas, fiz jogar. Agendei sete dias e quatorze horários diferentes para essa reunião. O maestro teria de estar presente em todos e eu deveria comparecer a apenas um desses horários. Assim, ficava mais difícil ele me pegar. Para minha surpresa ele concordou sem reclamar.

Apareci no terceiro dia, no último instante do horário combinado – três horas da madrugada. Cheguei de chapéu, máscara, capa e revolver. Fui preparado para voltar vivo a qualquer custo. Mais do que uma condição, uma certeza. O prédio ficava ao fim de uma rua morta. Tinha apenas três pisos. Segundo a referência, a sala ficava no segundo. Não havia letreiro, porteiro, câmeras visíveis, carros transitando. Apenas uma fachada descascada. Tudo estava quieto demais. O encontro anterior havia sido na zona central de Paris. O de agora, em uma cidade das sombras. O ambiente facilitava meu disfarce, mas a sensação de que caminhava para uma armadilha era mais forte a cada passo.

Entro no prédio e não vejo ninguém. Não há alarme ou alçapões. Ando me misturando à parede. De certo, o curso de espionagem me valeu de alguma coisa. Diploma de detetive, de atirador, de leitura labial, de ilusionista, de defesa pessoal... No entanto, só podia exibir os certificados de barista e administrador de empresas. Ambos falsos. Ossos do ofício. Eu tinha de me dedicar exclusivamente às letras. O elevador era convidativo, mas avanço pela escada. Degrau por degrau, passo por passo. O revólver em punho. Ao chegar à sala, pendo meu corpo sobre a porta recostada e vou observando o que me espera, quadro a quadro.

O prédio pitoresco escondia uma sala enorme, com espelhos no lugar de paredes. No centro, uma mesa pomposa e, na cadeira, com um cigarro entre os dentes, Alain Bourdais. Como o arranjador arranjara aquele lugar era o que menos passava pela minha cabeça. Sentia-me com a sensação de que estava em uma daquelas salas de terror, montadas em parques de diversões. Os espelhos distorciam, aumentavam, diminuíam, engordavam, afinavam, ofuscavam, destacavam, brincavam, com muito mau-gosto, com a imagem de suas vítimas. Naquele momento, eu parecia ser a única de milhares de vítimas.

- Olha só, os morto-vivos também aparecem. Já que você gosta de jogar, preparei essa sala pensando em você, Colin. Gostou? Para você que não gosta de se olhar ao espelho deve ser fascinante estar aqui. Olhe bem a sua volta, encontre o seu reflexo verdadeiro. Afinal, até hoje você não deve saber qual é o seu rosto de verdade, não é Colin?

- Não estou aqui para falar de mim. Quero saber o final.

- Calma! Você sempre com pressa. Fez-me esperar todo esse tempo e ainda se acha na condição de impor ponteiros em meu relógio. Sente-se. Tome um drinque, fume um cigarro.

É arriscado demais acertar qualquer coisa em uma situação dessas. Veneno, tranqüilizante, sonífero... Então, nego.

- Vamos ao final.

- Por que você é assim, hein fantasma? Não bebe, não fuma, não cheira...por que não gosta de deliciar os prazeres da vida? Isso faz mal. Quando foi a última vez que transou, Colin? Foi com Nadine? Conta-me como é fazer amor com a pianista?

Ele está tentando me enervar, quer que eu perca a calma com suas provocações. Preciso me manter calmo.

- Estou aqui para discutir o final do livro.

- Esse é o final do livro. Quero falar que Nadine teve um romance com o famoso ghostwriter Colin Collins, que se encontraram três vezes. A primeira em uma apresentação dela aqui em Paris. A segunda, em um barco aqui no Mediterrâneo. E a terceira, em Cairo, no Egito. E foi lá, depois de um desejo ardente, que ela foi morta pelo ghostwriter, que preferiu preservar sua identidade a amar a pianista.

Como é que ele sabia disso? As únicas pessoas que sabiam desses encontros eram eu e Nadine. Será que mais alguém viu o que aconteceu no Cairo? Será um blefe? Será que Nadine estava viva e tudo isso não passava de uma forma de me pressionar? Mas por que ela faria isso? O que ganharia com minha confissão...

- O que é Colin, ficou mudo? Diga-me se é ou não o final perfeito para o nosso livro.

- Não vou escrever isso.

Batendo o fundo do copo sobre a mesa, espirrando um líquido doce...

- O livro sou eu quem vai assinar, portanto sou eu quem decide o final. Estou lhe pagando muito bem para isso. E sei que você não pode voltar atrás depois que envia a rosa alaranjada e acende a vela. Você vai ter que escrever o meu final. Está com medo de escrever a verdade, de escrever a sua própria condenação.

Levanto da cadeira...

- O nosso trato está desfeito

Ele se levanta e quebra o copo...

- Um ghostwriter não pode fazer isso.

Eu rio enquanto ensaio uma maneira de sair dali...

- De fato, não posso deixar de terminar o livro. Mas posso terminá-lo da forma que eu quiser. Afinal, sou eu o escritor.

Como quem tira a carta fatal da manga, chegou onde eu não esperava...

- Entenda de uma vez por todas que você não é escritor, é apenas um fantasma. Quem escreve a história é quem assina o livro. Olhe a sua volta, você não existe. Você é um fantasma.

Depois de muitos meses, a crise voltara. Dores de cabeça, ânsia, tudo gritava em mim, tudo rodava em mim.

Os espelhos vão distorcendo meu rosto, vão redimensionando o fantasma, que parece me engolir. Não há mais Mark Egan. Tudo é Colin Collins. E Colin Collins é a anti-forma, a anti-matéria, o anti-humano... Aquelas imagens distorcidas se agigantam sobre mim, fazem caretas, me assombram, me assustam, avançam em minha direção, querem me pegar, me matar, me sugar de uma vez por todas. Será que eu ficaria para sempre preso dentro daqueles espelhos. Será que eu não sairia mais dali, seria apenas um daqueles reflexos. Aflição. Desespero. Angústia. Pego meu revólver e atiro naquelas imagens.

Vou quebrando espelho por espelho. O maestro ri. Ri da minha fraqueza. No fundo dos espelhos, pôsteres de Nadine cobrem a parede. Tudo foi muito bem pensado. Ao quebrar o ghostwriter, vejo Nadine. Como se ela, assim como Mark Egan, vivesse sufocada por um personagem que criei. Como se Colin fosse apenas uma imagem, uma casca, uma ilusão. Todos eles existiam por detrás deste reflexo falso. Aquilo foi mexendo demais comigo, me devorando e consumindo. Sem pensar, atirei no espelho que seria a janela e pulei. Pulei ao desconhecido. Era como se eu voasse nos braços do fantasma. No entanto, isso não impediu que eu trincasse duas costelas e abrisse um corte em meu supercílio.

Corri até o carro e acelerei sem olhar para trás. No entanto, a imagem do maestro gargalhando sucumbiu a minha frente. A dor física e psíquica me fez subir no meio fio e amassar a lataria de um Renault em um container de lixo. No entanto, foi isso que me fez perceber que eu estava sendo seguido. Bourdais tinha montado todo um aparato para me pegar. Começou uma verdadeira perseguição pelas ruas de Paris. Eram viaturas policiais e carros civis. Eram soldados e gangsteres. Eu contrariava a lei e a anti-lei. Transformei a escuridão em uma aliada e acelerei o carro até mergulhar no rio Sena. A batida na mureta de concreto e o vôo cego.


Colin sempre fugiu de uma perseguição como essa e agora, por Nadine, vivia em clima de terror e desespero. Poderia se pego a qualquer momento. Atirar o carro contra um rio poderia ser a assinatura em sua própria sentença de morte ou de prisão. O que será de Colin Colins daqui para frente?

Ghost 32



Filha do piano



“Ela nasceu. Não se sabe onde, nem quando. Pelo sotaque e trejeito, especula-se que tenha sido nos meandros de uma França que já não existe mais. A idade de uma dama não convém tentar decifrar, quiçá revelar. O ato de ter nascido já é suficiente. Ainda mais quando se nasce e cresce em meio a lendas. As árvores francesas contam que ela havia sido encontrada dentro do corpo de um piano por uma velha senhora chamada Madame Loren, que cuidava de um conservatório. E teria sido criada lá até os últimos dias da velha. Embora seja romântica, essa versão é negada por boatos e por alguns fotógrafos, que já conseguiram imagens dela ao lado de uma mulher mais velha, talvez sua verdadeira mãe.

O fato é que Nadine parece ter vivido desde os primeiros dias no colo do mistério. Pouco se sabe de concreto sobre ela. Às vezes, parece real, em outras, apenas um fantasma. Talvez o espírito personificado da música. Outra história menciona que a pianista só existe durante os espetáculos, depois se transforma em notas musicais que se esvaem como fumaça. O cotidiano, a vida em família, a despertar e adormecer de Nadine não são conhecidos. Ninguém a vê fazendo compras, tomando café, festejando o próprio sucesso. Ela nunca foi receber um prêmio sequer. Lendas à parte, ela sabe como ninguém produzir distorções óticas, embaralhar as cartas e se esconder no tabuleiro.

Há também quem jure que Nadine tem mais idade do que aparenta seu rosto de anjo. E isso não é comentário de mulher invejosa, mas de gente que acredita que ela e a música são a mesma coisa. Talvez duzentos, setecentos, três mil anos. Embora essas teses sejam defendidas por milhares de pessoas, a mídia mais dura diz que esses boatos todos não passam de uma estratégia mercadológica. Nadine vende muitos álbuns porque além do talento, há uma boa dose de folclore em torno dela. Mesmo com ataques da imprensa, a pianista não perde a postura calma. Para aumentar o suspense e a ira dos jornalistas mordidos de orgulho e ira, ela não concede entrevistas. Tudo o que sai na imprensa é especulação. Será que namora? Será que passeia? Será que se disfarça ou vive reclusa? Será que compõe de madrugada ou no fim da tarde, será que o faz por amor ou por solidão? Será que bebe, será que fuma, será que se droga? Será que é virgem ou cai nos braços de alguém, que bem ou mal lhe quer?

De todos os mortais, eu fui o que convivi mais de perto com Nadine. Sei a resposta para todas essas perguntas. Eu fui seu arranjador por onze anos. Até mesmo produzi uma turnê. Tive um pacto de silêncio com ela, que teve de ser quebrado. Infelizmente, eu não consegui mais ficar ao seu lado apenas como maestro, eu queria mais. Muito mais. Queria ser parte de seu corpo. E se eu havia traído sua confiança, não havia motivo para ficar ao seu lado. Tive de deixar a cena. E só quebro o silêncio em razão deste sumiço. Agora, sinto-me à vontade para falar já que, possivelmente, a pianista foi calada. Não me venham com essa história de a pianista se calou, ela foi calada. Nadine não iria contra sua natureza. E sua natureza é ser música”.

Com o texto em suas mãos, dezoito minutos depois ligo para o sr. Alain Bourdais. Precisava saber se era isso mesmo que queria. Para garantir minha segurança, ligo de um telefone público de Budapeste. Para minha sorte ou azar, a Bélgica me transmitia à calma de um arranjo de flores de plástico. Não crescia, não descoloria, não atraia abelhas, apenas um outro tipo de olhar.

O telefone chama por quatro vezes, do outro lado, a mesma voz sarcástica de sempre.

- “Você é o melhor mesmo, Collin. Mais do que talento para escrever, você sabe muito sobre o assunto. Tem desenvoltura para falar dela como ninguém. Parece até que conheceu uma Nadine que eu não conheço”, disse o maestro pelo telefone.

- Já que aprovou a linha do livro, vou retornar ao trabalho. Quero terminar essa obra o mais rápido possível.

- “Por que a pressa? Esse tema lhe incomoda? Não entendo a razão para tanto nervosismo. Você está apenas escrevendo sobre uma pianista famosa. Não é mais uma dessas obras perigosas que você escreve para mafiosos, nazistas, soviéticos.”

- Não estou nervoso, apenas tenho um prazo a cumprir e outros trabalhos a executar. E não costumo perder tempo. A vela arde e meu tempo queima junto dela. Até logo.

Desligo o telefone e volto ao hotel e aos escritos.

“Era noite quando Loren ouviu um choro abafado, como um fá sustenido, vindo da sala dos pianos. Será que um filhote de gato havia entrado pelos vitrais? As alunas já estavam na cama. O que será aquela composição chorosa? Madame Loren percorreu o assoalho à procura daquele filete de voz. Para sua surpresa, vinha de um piano. Será feitiço? O piano chora. Deve ser milagre de Notre Dame. Ficou receosa em abri-lo, mas não tinha outro caminho. Não poderia promover escândalos, tampouco apavorar as alunas. Não faria bem para seu conservatório. Foi então que tomou coragem e abriu o tampo do piano. As pernas tremaram ao se deparar com a imagem de um bebe enrolado em uma manta esbranquiçada.

Mas como a criança fora parar naquele lugar? Será que alguma aluna engravidara, dera a luz e escondeu o rebento ali. Não, não era possível. Ela perceberia. E naquela semana o conservatório não recebeu a visita de ninguém de fora. A última apresentação foi há 20 dias. As empregadas tinham pouco acesso àquela sala. Madame Loren não gostava que não-pianistas tocassem aquelas teclas brancas e pretas. Disfarçava o ciúme dizendo que o piano desafinava facilmente. Ela mesma fazia questão de cuidar deles. Ficou temerosa em tocar na criança. Mas se chamasse a polícia, o que iria explicar? Poderiam desconfiar dela e a culpá-la por algo que desconhecia.

Além disso, não queria ficar sem a pequena. Algo dizia que teria que criar aquela menina. O correto seria inventar uma outra história. De que a criança havia sido abandonada na porta de seu conservatório, dentro de um cesto. Quando tocou na menina, o inexplicável falou aos seus ouvidos. O piano bradou forte uma canção. E não havia ninguém ali além dela e da menina. Seria o anjo da anunciação? Seria o demônio a brincar? Seria o fantasma da música? Seja o que fosse, teria que ficar calada. Nem gritos eram permitidos. A ela caberia apenas cuidar da menina que estava sendo entregue as suas mãos como uma partitura. Por sorte, tinha uma dessas cestas de feira, a qual tratou logo de forrar com um lençol e colocar a criança. Daí sim chamou as outras duas professoras. Se conseguisse fazê-las crer em seu enredo, poderia enganar a todos os outros. No entanto, não conseguia se enganar. E as inquietações lhe atormentavam mais e mais a cada dia.

E se a mãe verdadeira aparecesse e contasse que deixou a criança dentro do piano. Ela ficaria de mentirosa, poderia ser presa. Dentre o amor e o medo, tentou matá-la por duas vezes. Na primeira, faltou coragem. Na segunda, sofreu o primeiro dos três infartos que teve durante a vida. Foi o sinal de que não deveria mexer com a criança. E quando perguntaram o nome que daria aquela menina, logo respondeu: Nadine. A menina cresceu ouvindo música e aos dois anos já apertava as teclas brancas. Aos sete já conseguia executar Chopin. Aos dez, foi solista nos minuetos de Bah. Era um fenômeno.

A cada dia, Madame Loren tinha mais certeza de que a menina havia sido deixada ali por algum espírito da música. Poderia soar absurdo, mas não havia outra explicação para seu talento senão o fato dela ter sido gerada por aquele piano. Os sonhos, as esperanças, os sentimentos que sempre foram depositados naquelas notas geraram uma criança. De certo modo, ela era a mãe de Nadine. Batizou-a segundo as notas de uma música, que soprava em seu ouvido. Sentia-se um pouco Virgem Maria por isso, já que tinha gerado uma filha sem jamais ter ido para cama com homem algum. Era donzela. Dedicou sua vida inteira à música e aquele parece ter sido um presente.

Conforme crescia, o conservatório de Madame Loren se tornava pequeno demais para Nadine. Ela precisava de vôos mais altos. No entanto, havia se apegado com Loren e as outras meninas. Era de falar pouco e de se doar completamente ao piano. Passava noites em claro em busca de uma apresentação perfeita. Nadine estava além do sagrado e do profano, não tinha regras, limites, convenções... queria apenas o máximo da entrega à música. Ao ver a filha tocando completamente nua uma música desconhecida, de um ritmo fora dos padrões, madame Loren teve seu segundo infarto.

O terceiro aconteceu quando um homem, aparentando meia-idade, chegou para reclamar a guarda de Nadine. Disse que a deixou dentro do piano por não ter condições de cuidar dela. No entanto, só Loren foi capaz de ver a figura deste homem. Dizem que era o próprio espírito da música, já que a conversa se desenrolou na sala com mais oito pessoas. Ela conversou sozinha, gritou e começou a sofrer dores horríveis. Foi levada até sua cama e, desta vez, não aceitou a presença dos médicos. Apenas a de Nadine.

No leito de morte, contou a história verdadeira para a menina e pediu perdão. Disse que fez tudo para fins de protegê-la e de tê-la por perto. Nadine abraçou a mulher, beijou-a em perdão e disse que já sabia de tudo. O piano havia lhe contado tudo. Não se assuste, mas a menina conversava com o piano. Diante dessa confissão, o coração da mulher pontuou ainda mais forte e se calou. Nadine chorou e foi para o piano. Não participou do velório, nem do enterro. Ficou reclusa, debruçada sobre o piano. Após a morte de Madame Loren, poderia finalmente abrir suas asas. Tinha treze anos e um longo céu pela frente. E ela sabia que sua tutora teve de morrer para que ela continuasse a prosseguir. O horizonte era o seu piano”.

A vela ardia e o sentimento chamado Nadine não saia da minha volta. Aparecia em todo lugar. Principalmente, sobre a cama. Gostava de ficar deitada me observando, me chamando, me provocando. Eu ia ao seu encontro e deparava com lençóis e travesseiros. Em outras vezes, estava na janela a assoviar canções, sinfonias inteiras. Eu tentava lhe ter em meus braços e por várias vezes quase cai do quinto andar. Talvez era isso que ela queria realmente. Levar-me à morte. Nada mais justo matar quem a tinha matado. Eu precisava tomar cuidado com essa tentação antes que fosse tarde demais.


Pouco a pouco, a história de Nadine vai sendo revelada. E para surpresa de todos, Nadine e Colin Colins tem muita coisa em comum. Ambos são regidos por uma espécie de fantasma. O fantasma das letras e o fantasma da música. Será que são a mesma pessoa. O que mais essa história nos guarda?

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Capítulo 31
O maestro aparece e a orquestra desafina



Mesmo com resquícios de dores de cabeça, alucinações e insônia, minha vida parece ter voltado ao eixo. Se é que algum dia ela girou em torno de um desses mecanismos previsíveis ou mecânicos. Tempestades à parte, havia retomado meus trabalhos em um ritmo alucinante, de modo que a produção crescera novamente. Já passara dezenove meses desde aquele fatídico incidente com Nadine. O corpo não foi encontrado. Nunca mais tive notícias dela. A pianista parece ter se calado para sempre. Eu também não recebi nenhuma intimação ou bilhete secreto dizendo saber ser eu o assassino. Ninguém suspeitava de mim, mas eu passei a evitar Paris. Não havia nada de concreto, mas meu instinto me pedia para passar longe da cidade luz.

Neste tempo todo, terminei o livro comercial sobre a empresa dos canadenses, escrevi vários artigos para políticos europeus, ensaios para intelectuais de diversas academias, as memórias de um filósofo dinamarquês que acreditava que a igreja deveria se confrontar com o Estado, o romance de um escocês que se passava em uma caverna, o roteiro de teatro de um austríaco sobre casamento, a organização dos pensamentos de um empresário norte-americano que nunca pensou nada de útil e a história de um mago irlandês, que tinha uma vida reclusa e misteriosa. Não é preciso dizer o que mais mexeu comigo foi a história que envolveu a Irlanda. E não foi por causa da magia. Fiz questão de passar meses naquela terra que ainda tinha muito a me dizer. E nesse internato, tive a impressão de ter reencontrado minha família. Já estava acostumado a enxergar minha mãe e meus irmãos, agora meu pai ainda me causava espanto. Até hoje eu não sei se ele está vivo ou morto.

Sempre à frente, a vida voltava aos trilhos. Ou quase isso. Eu não tinha mais me interessado por mulher alguma. A lembrança de Nadine ainda me causava calores estranhos pelo corpo, sonhos e pesadelos. Talvez tudo estivesse ligado ao fato de eu tê-la assassinado. No entanto, eu sentia atração por aquela mulher. Devido a minha identidade secreta, não podia contar isso para ninguém, nem amigos ou terapeutas. Aliás, devido a minha profissão, não tinha amigos ou terapeutas. Era eu, o fantasma e, no máximo, o espelho. Será que um dia eu poderia me casar, ter filhos, viver uma vida comum? Essa era uma pergunta que não saia da minha cabeça. E talvez por isso Nadine se transformasse em um capítulo sem fim neste livro sem pé nem cabeça que passou a ser a minha existência.

Tudo estava dentro da falsa normalidade que me cercava quando recebi um telefone de um possível cliente de Paris, querendo conversar pessoalmente comigo. Por motivos de saúde, alegava que o encontro teria de ser em Paris. Já se passara tanto tempo, por que negar? E não é do gosto do fantasma que eu deixe de escrever. Como não havia livro algum em andamento, enfrentei meus temores e fui em frente. Marcamos a reunião para dali a três dias em seu escritório. Dei a minha conta bancária para que ele fizesse o depósito, pagando o valor, nada em conta, de uma reunião presencial. Passei a adotar esse procedimento como forma de evitar aborrecimentos e valorizar o meu trabalho. E, para minha tristeza, o dinheiro chegou à conta. Embora fosse só mais uma reunião, consegui fazer muito pouco entre o telefonema e o encontro. Fui acometido de várias turbulências e uma vontade imensa de não ir. Peguei o telefone várias vezes para desmarcar o encontro, inventar alguma desculpa, fugir da França, mas eu não poderia levantar suspeita. Já imaginou como eu seria prejudicado se o comentário de que Colin Collins foge de Paris se espalhasse?

Espalhadas mesmo estavam minhas roupas sobre a cama do hotel. O encontro era nas horas mortas noite, como eu fazia questão, mas estava difícil escolher algo para vestir. Tudo o que eu escolhia parecia me deixar exposto demais. Estava nu com meus fantasmas. Corpo aberto, peito aberto e olhos fechados em Nadine. Andava assustado, olhando para trás, imaginando barulhos. Quem sabe um uísque. Poucas coisas me faziam tão bem quão um copo de um 15 anos. Aquele líquido quente e forte escorrendo em minhas lacunas como urina de cavalo. Uma vontade doida de sair cavalgando sem rumo e esquecer esse encontro me possui, mas a realidade me exorciza e me mostra uma escada.

Três lances depois, eu estava na porta do Sr. Alain Bourdais, o novo cliente. Ao contrário dos outros clientes, parece não se incomodar com minha máscara. Ao contrário, parece que sempre esperou me ver assim. Chega a fazer pouco caso da minha presença. Ele me oferece uma bebida e, como de praxe, eu nego. Não aceitava nem comida nem bebida de cliente algum. Podia ser uma armadilha. Alain era um sujeito fisicamente forte, cuja testa brilhava. Fiquei um tanto intrigado com aquele brilho e o tal problema de saúde. Seu escritório era todo em tons de filme antigo. O branco e preto dominavam o ambiente. Sendo que o branco era cinza.

Antes de ir direto ao assunto, fez vários rodeios. Contava de sua vida como maestro e da frustração de nunca ter conseguido escrever ensaios ou artigos sobre o que presenciou. Entre suas histórias, abria brecha para as perguntas caírem sobre mim. Aquela situação foi me deixando impaciente. Havia combinado que o encontro não poderia durar mais do que quinze minutos e o relógio já se aproximava dos trinta. Algo não cheirava bem. Foi então que decidi me levantar e dizer que infelizmente o tempo dele havia se esgotado. Antes que eu pudesse sair, ele acionou um mecanismo, debaixo de sua mesa, que tranca a porta automaticamente. Mudou o tom da voz ao dizer que pagava caro para me ter ali e que os quinze minutos de um francês eram bem diferentes de um inglês.

Algo estranho acontecia naquele escritório. O primeiro impulso foi o de sacar o meu revolver ou pular a janela, mas voltei a sentar e escutar o que aquele homem dizia. Depois de mais alguns minutos de uma conversa sem destino, ele diz que me chamou ali para que eu escrevesse o que ele julgaria ser a obra musical do ano – a história da pianista Nadine Chevalier. Os olhos dele esbugalharam para cima de mim e eu fui tragado pelo meu próprio silêncio. Ele me perguntou se eu a conhecia e eu permaneci calado. Ele me perguntou se eu já havia a ouvira tocar e eu permaneci calado. Ele me perguntou se eu tinha algum disco dela e eu permaneci calado. E eu permaneci calado por longos minutos.

- Será que o ghowstriter perdeu a voz? Será que o ghostwriter sabe algo mais sobre o desaparecimento de Nadine? Será que o ghostwriter tem algo a dizer sobre a pétala de rosa alaranjada que foi achada no teatro? Acho que o silêncio deixa muitas dúvidas no ar, não é Colin?

- Eu não conheço nem a mim próprio, como poderei ter conhecido Nadine? Eu sou o desconhecido... A única música que ouço é o bater das teclas da minha máquina e sabe que canção ela toca? A canção do silêncio! Quanto à pétala alaranjada, está blefando. E, desculpe dizer, você blefa muito mal.

- Já fui campeão de pôquer há alguns anos. E você, Colin, ganhou o quê? Um fantasma?! Pois saiba que a polícia encontrou uma pétala, apenas uma pétala, de uma rosa alaranjada naquele teatro no Cairo. Ela só não divulgou nada sobre isso porque não há provas. Mas para quem lhe conhece um pouco mais sabe que isso tem alguma coisa a ver com você. E só não fizeram o exame da sua digital porque a polícia não sabe aonde encontrar um fantasma...

- Realmente eu faço uso das rosas alaranjadas. Mas elas não são uma exclusividade minha. Qualquer um pode cultivar, comprar, presentear. Portanto, acho que a nossa conversa termina aqui. Abra a porta ou serei obrigado a sair do meu jeito.

- Calma, Colin. Vejo que o senhor ficou um tanto alterado. Mas já que afirma não estar envolvido no desaparecimento de Nadine, pode escrever o meu livro. Se aceitar, pode ter certeza de que será um sucesso. A França está doida querendo saber onde está sua pianista. Agora, se negar, eu vou fazer questão de relatar esse encontro para a polícia. Pode julgar ser blefe ou não, mas eu digo que há uma câmera escondida neste escritório. Pena que você cumpriu o ritual e veio de máscara. Mas a sua altura e a sua voz e outros dados físicos seus estão registrados e podem levar até você.

- Isso não passa de mais um blefe.

- Pode ser verdade. Pode ser mentira. O que interessa é que já há uma desconfiança não só na minha, mas na sua cabeça. Pense bem antes de me responder. É muito suspeito deixar de escrever um livro sobre um crime que terminou com uma pétala de rosa alaranjada. O mundo todo sabe da sua história com rosas alaranjadas. Você pode não chegar a ser preso, mas terá de conviver com mais uma perseguição da polícia. Já há várias pessoas atrás de você, não é Colin? Tenho a sensação de que não vai querer mais problemas...

- Abra a porta. Você terá a sua resposta em breve.

Alain abre a porta e sua testa parece brilhar ainda mais. Saio daquele escritório e desapareço nas noites de Paris. Aquele chantagista sabia algo sobre a minha participação no crime. Ou, ao menos, considerava essa hipótese. E isso já era o bastante para me prejudicar. Eu poderia matá-lo, mas eu precisava saber até aonde ele sabia. E se mais alguém sabia. Se tudo aquilo fosse uma armação, poderia ser indiciado por queima de arquivo. E não era isso que eu queria para a minha carreira. Maldita hora que aceitei o convite. No furor da raiva, chuto uma das latas de lixo que encontro pela rua e acordo uma legião de gatos. Eis o meu sinal. Chegara o momento de eu ser tão pardo quanto aqueles felinos.

Vinte horas depois, uma rosa alaranjada chega à casa do senhor Bourdais. Ele ri. Eu rôo de raiva. Mesmo com todos os riscos, aceitaria o convite. Era a oportunidade de eu me envolver em um assunto que me interessa e mais, diz-me respeito. No entanto, o combinado foi de conversarmos apenas por telefone, exceto se eu quisesse o contrário. Um novo encontro poderia ser perigoso demais e só deveria acontecer no momento certo. Mesmo via telefone, ele continuava com sua tortura psicológica. Parecia querer me irritar, me provocar, me pegar em contradição. Hospedei-me em um hotel na Bélgica e ligava para ele de um telefone público, sempre diferente. Não podia correr o risco de ser rastreado. Eu precisava ser mais esperto que Alain. Afinal, o maestro aparecera e já no primeiro ensaio minha orquestra desafinou. Eu tinha de ser mais firme neste assunto de Nadine. Mas como? Nesta mesa de pôquer, havia um jogador indesejado – o sentimento.

O livro era apenas um pretexto. Aquele senhor era muito mais um investigador, um detetive, um policial do que um maestro. Fui pesquisar. Existia um regente com o mesmo nome, mas eu não tinha certeza se era a mesma pessoa. Liguei para alguns contatos, porém não consegui descobrir muita coisa sobre ele. Hospedei-me com meu nome de batismo, Mark Egan, ficava grande parte do tempo vivendo como um turista, mas não deixava de me preocupar em ser pego. Será que eu estava sendo seguido há muito tempo? Será que a história de Bourdais começara agora? Será que era só mesmo um blefe? Eu não tinha espaço para dúvidas e antes de decidir o destino da vida daquele suposto maestro, optava pela cautela.

Cautela e muito uísque. Para não levantar suspeita, uma vez a cada quinze dias voltava à Inglaterra. Passava uns três dias lá e voltava para um novo hotel na Bélgica. Tudo era calculado para não deixar rastros. Até mesmo a rosa alaranjada que chegou às mãos de Alain foi sem as minhas digitais. Conforme escrevia a história de Nadine sentia medo e culpa. Até onde tudo aquilo era verdade? Por mais que eu o chamasse, Spencer desaparecera. A vela ardia, as letras caiam no papel e a solidão mais uma vez ascendia em mim. Até quando eu agüentaria essa vida? Até quando eu conseguiria conviver entre a ficção e a realidade? Até quando eu conseguiria fugir?


A resposta para essas e outras perguntas estão nos próximos capítulos. Será o fim de Colin Collins. Será que o ghostwriter iria cair por terra com pouco mais de cinco anos de carreira. Como o escritor iria lidar com Alain? E, na verdade, quem era esse maestro? Muita coisa ainda precisa ser revelada. Não perca a continuação dessa história.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Capítulo 30
O que é e o que não é fantasma


Fugido ou não, minha estadia no Canadá completava três meses. A minha desculpa era a biografia de uma marca de cosméticos. Emocionante? Nem tanto. O fato é que não consegui ficar em Londres depois do assassinato. Senti uma necessidade desesperada de desaparecer. Aproveitei essa oferta de serviço, que já havia negado anteriormente, para tentar esquecer Nadine. Depois que a matei não abri mais jornal algum, tampouco vi quaisquer noticiários da TV. Isolei-me por completo. Não queria saber de nada sobre o crime. Internei-me em casa e, tão logo, cortei o Atlântico. Covardia ou não, precisava praticar o verbo esquecer em todas suas variações.

Fracassei. Ao longo desses três meses, não tive o sucesso esperado. Por mais que eu tentasse, não consegui me desatrelar daquele maldito sentimento. Eu via Nadine na rua, no parque, no carro, na sala, na cozinha, no banheiro, na minha cama. Ela estava lá e sempre tentando me matar. Era mais uma na lista. A pianista, o mafioso italiano, a coroa britânica, a interopol, os russos, os alemães, o meu pai. Todos queriam me transformar em um fantasma de verdade. Como agravante, o som daquele piano não saia de meus ouvidos. Estava cada dia mais difícil conseguir um pouco de paz. Sem desconhecer a barreira entre profissional e pessoal, aquela situação afetava em cheio o meu trabalho. Com certeza, meu tutor não deveria estar em nada satisfeito com essa minha fase.

O livro que estava a escrever era a história oficial de uma marca que se tornou líder no setor de cosméticos. Para comemorar os trinta anos da tal empresa, queriam um livro no melhor estilo “sou a melhor”, assinado pela própria marca. Longe de me render um lugar em alguma academia de letras ou algum nobel de literatura, aquele livro se resumiria a algumas cifras em minha conta bancária. Mas o dinheiro era o que menos importava naquele momento. Do outro lado do Atlântico, sentia-me mais protegido. Estava na ilha de Montreal e o clima não era dos mais apropriados para se esquecer um amor. O frio galopava num vento gélido. O tempo era ideal para as mãos se unirem a outras mãos, os lábios, a outros lábios e o corpo, a outro corpo. Os trens cortavam Montreal sendo alimentados pelos trilhos da minha loucura.

Havia alugado um flat, no qual passava a maior parte do tempo. Ao menos uma vez por dia, ligava para o mordomo de casa e para o gerente dos cafés. Por lá, tudo transcorria na mais perfeita tranqüilidade. Fora alguns clientes, por meio de carta ou telefone, ninguém mais me procurava. E eu sempre perguntava se uma mulher de cabelos nos ombros, boca carnuda, olhos de colméia falando francês, ou ao menos com sotaque francês, havia me procurado. E a resposta era sempre não, não, não. De fato, o que eu via em Montreal devia ser miragem, coisa da minha cabeça. Afinal, agora eu era um assassino. Mas eu não me via assim, ao contrário, para mim eu era um romântico intenso e propenso a algumas loucuras.

Enquanto tentava contar da melhor forma possível a história da tal marca, que saiu do anonimato com um produto que prometia rejuvenescimento imediato, eu matinha os pensamentos longe. Aquela música do piano de Nadine infestava minha vida, minha sobrevida e minha morte. Ao contrário da pianista, o morto parecia eu. Eu só pensava nela e em mais nada. Coisa de feitiço, de encantamento. A angústia foi tanta que, certa noite, quando cai em mim, estava vasculhando as lápides do principal cemitério de Paris. Queria encontrar o nome dela naqueles mármores. Ah! E se o conseguisse, escavaria aquela terra e verificaria o seu pulso. Deixei inacabado o trabalho no Canadá em nome de restos mortais. Sentia-me um arqueólogo de sentimentos. Eu ali, escavando a mim próprio. Queria que ela estivesse morta e ao mesmo tempo, desejava o contrário.

Do cemitério para os bares. Revirando jornais antigos, as manchetes se perguntavam pelo paradeiro da pianista. Ela havia desaparecido como estrela cadente em noite escura. Ninguém encontrara seu corpo. A polícia investigava o crime, mas, até agora, só hipóteses circundavam o sumiço de Nadine. Para além da imprensa, eu me perguntava o que havia acontecido. Será que foi devorada por uma tempestade de areia? Será que foi enterrada no deserto feito uma odalisca? Será que tinha mais de uma vida? Sem rumo, peguei o primeiro vôo ao Cairo. Voltei ao lugar da última apresentação. Quando entrei no teatro, acontecia um show de música local. Um grupo cantava algo que eu não conseguia entender. Mulheres dançavam uma dança estranha. E para onde foi o piano? Para onde foi Nadine? Onde eu estava naquele jogo?

Sem saber o que fazer, passo alguns dias no Egito. Fico perambulando pelos desertos, por pontos turísticos, freqüentando o teatro uma noite atrás da outra na esperança de encontrar alguma pista. Enquanto isso, os trabalhos do ghostwriter vão acumulando. Desde que fui escolhido, jamais deixara de escrever. Não é a toa que Spencer aparecia em sinal de bronca em minhas visões. Tudo dava errado, mas eu precisava resolver aquela obsessão. Foi então que resolvi dar um basta nesta busca impossível e voltar para Londres. Era hora de tentar me concentrar, de superar tudo aquilo, de voltar a ser eu mesmo. O pior é que eu não podia contar nada a ninguém, não podia desabafar, tinha que engolir tudo a seco e ainda sorrir. E mais grave, precisava produzir mais e mais e mais. A vela queimava, ardia. E eu não podia abandonar o fantasma. Se alguém fosse deixar alguém, esse alguém seria ele.

Quando abro a porta do meu castelo, ela esta no sofá. Chego perto, converso com ela e ela desaparece no ar. Era só mais uma miragem. Isso estava explícito nos olhos de estranhamento do mordomo. Preciso me acalmar. Não posso ser descoberto. Não posso ter atitudes ou passos suspeitos. Chás, tranqüilizantes, banhos de ervas, incensos... tudo era permitido para tentar afastar-me deste mundo alucinógeno. Porém, de nada me adiantam. Ela caminha comigo. Ao contrário de fazer meu trabalho, bebo copos e mais copos de uísque e acordo muito tempo depois. Caído no chão do quarto, desperto com um chute em minhas costelas. Era Spencer.

“Parabéns! Você está indo pelo mesmo caminho que eu fui! E você conhece a minha história capítulo por capítulo. Vai querer ter o mesmo fim? Que idiotice é essa de se perder por conta de uma mulher que você mal conhece? Se você não der um jeito em sua vida, vai ser castigado. O fantasma não está nada, nada satisfeito com você. Quer perder tudo o que já conquistou? Quer colocar um ponto final em sua trajetória de ghostwriter? Será que eu me enganei tanto e você não passa de um sentimental? Cadê tua gana, tua obstinação, tua audácia? Vai deixar uma paixãozinha lhe dominar?”

Mas Spencer, eu a matei...

“Lembra-se daquele livro que você escreveu sobre uma guerra e havia um menino que morava dentro de você. Pois é, essa garota esta do mesmo jeito. Por mais que você queira, não consegue matá-la. E sabe por quê? Porque ela esta aí, dentro de você, dentro de seus pensamentos. Não é ela que está em todos os lugares e sim seu desejo que a projeta. É o seu eu instintivo lhe dominando. E o seu instinto é alucinógeno. O piano só existe dentro da sua cabeça. Você está escutando algum piano agora?”

Estou. É aquela música que ela tocou pouco antes de ser morta...

“É mentira. É ilusão. Não há piano algum aqui. É só a sua imaginação. É só o seu desequilíbrio. Você estava indo bem, ao menos estava lá no Canadá trabalhando. Mas o que fez? Acreditou no seu sentimento e saiu como um louco caçando uma espécie de tesouro. Parece aquelas histórias de desbravadores que a gente vê quando criança. Só que você é maior que isso. Tem um fantasma lhe habitando. E você não pode fraquejar agora. Por isso, pense bem no que você está fazendo com sua vida. Estou aqui hoje em caráter de advertência, como amigo... da próxima vez pode ser que não seja eu quem venha e que o aviso seja transformado em castigo”

Serei castigado por que amei? É isso...

“Quando morri, achei que o Mark Egan tinha morrido também. Mas agora, vejo o contrário. Ele está mais vivo do que nunca. Você deixou que ele se fortalecesse e agora ele quer o lugar de Colin. Você vai deixar isso acontecer? Colin Collins não faria tanta besteira como você fez. Esse não é o comportamento de um profissional. Você continua amador demais. Se eu soubesse disso não teria morrido. Você pode estragar séculos de história, de trajetória ghostwriter”.

Eu vou me curar Spencer...

“Você fez tudo errado. Tirou a máscara para ela! Seguiu-a! Deixou uma rosa alaranjada lá! Você está misturando as coisas. Como ghostwriter, você tem que se abdicar de um monte de coisas. Não pode colocar tudo a perder por conta de uma mulher. Você estava indo tão bem. Eu estava com orgulho de você. O fantasma estava feliz. E você, da noite para o dia, conseguiu desandar tudo. Se você não der um giro em sua vida, quando acordar deste transe maluco que se meteu o caminho que tomou pode não ter mais volta. Você quer voltar àquela vidinha medíocre que tinha antes? Eu acho que não, mas esta é uma pergunta que só você pode responder”...

Mas...

A imagem daquele senhor se desfragmentou e Mark Egan ou Colin Collins, seja quem deles estivesse ali, não sabia se aquela conversa foi real ou se tudo não passou de mais uma alucinação. A cabeça doía como há tempos não o fazia. Reais ou fictícias, aquelas palavras de Spencer, a quem ele sempre respeitou muito, calaram fundo o ghostwriter. Ele deixou a garrafa de lado e foi para debaixo do chuveiro. Depois de um banho frio de mais de trinta minutos, tomou um café bem forte e saiu pelas ruas de Londres, munido de capa e máscara.

Fui até o cemitério central e, diante da lápide de Victor Spencer, deixei uma rosa alaranjada, agradecendo sua ajuda e reafirmando seu juramento em ser ghostwriter. O coração estava partido, a cabeça confusa, o corpo fatigado, mas o fantasma tinha que falar mais alto. E eu tinha de saber separar o que era e o que não fantasma em minha vida. Essa era uma tarefa vital para que eu pudesse existir.


O romance de Colin Collins chegou longe demais, rendendo um ultimato do fantasma e uma visita inesperada, e nada agradável, de Spencer. Ele teria que esquecer esse amor a qualquer custo. Mas, para além desse fato, onde estará o corpo de Nadine? Essa pergunta ainda continua sem resposta. Será que nosso ghostwriter vai superar essa história toda? Só conferindo os próximos capítulos para saber...